IAG - Instituto Adriana Garófolo

● Cursos e grupos de estudo em nutrição clínica para profissionais que atendem pacientes com câncer
● Atendimento clínico em nutrição para pacientes oncológicos

 Transplante TMO ou TCTH

Transplante de medula óssea (TMO) ou transplante de células tronco-hematopoiéticas (TCTH) é utilizado no tratamento de várias doenças hematológicas e de alguns tumores sólidos. O procedimento é utilizado para restaurar a função da medula após altas doses de quimioterapia, associadas ou não à radioterapia, por meio da infusão de células-tronco (“stem cells”) ou células progenitoras hematopoiéticas, com capacidade de multiplicação e diferenciação em todos os tipos de células sanguíneas maduras: eritrócitos, leucócitos e plaquetas.

Geralmente, os pacientes candidatos ao procedimento são internados em unidades específicas. Para o tratamento de transplante, um cateter venoso central é inserido. Este pode ser parcialmente implantável (tipo Hickman) com duração permanente ou um cateter de duração temporária.

A primeira fase do TCTH é caracterizada pelo regime preparatório ou regime de condicionamento, que são os dias em que ocorre a administração da quimioterapia, bem como da radioterapia corporal total em alguns casos. Estes dias são contados como negativos e o dia do transplante é denominado “dia zero”. A partir de então, são contados os dias após o TCTH.

Os transplantes podem ser autólogos ou alogênicos (aparentados e não-aparentados), dependendo da origem das células. Quando estas são originárias do próprio paciente, o transplante é denominado autólogo; quando as células são doadas por um outro indivíduo é denominado alogênico. No caso do aparentado, o doador geralmente é um irmão. Se o doador é um gêmeo idêntico, o transplante é chamado de singênico. Nos TCTH não-aparentados os doadores podem ser qualquer indivíduo que apresente algum grau de compatibilidade. Diferente dos transplantes de órgãos sólidos, em que é importante a compatibilidade sangüínea “ABO”, os doadores para os TMO devem ter a mesma tipagem HLA (“human leukocyte antigen”). Irmãos têm 25% de chance de ter herdado o mesmo HLA de seus pais. Os doadores podem ser irmãos ou pessoas não aparentadas, adultos ou sangue de placenta, desde que seja respeitada a compatibilidade HLA. Como as células-tronco hematopoiéticas são as responsáveis pela produção de todos os elementos sangüíneos, os pacientes passam a ter a mesma tipagem sangüínea que seus doadores.

As células-tronco hematopoiéticas são geralmente obtidas da própria medula óssea. A coleta é realizada diretamente dos ossos da bacia com agulhas e seringas, em centro cirúrgico, sob anestesia geral e/ou bloqueio espinhal. Após a utilização de fatores de crescimento de granulócitos (“G-CSF”), associados ou não à quimioterapia, as células-tronco podem também ser coletadas do sangue periférico por meio de um procedimento chamado de leucoaférese, semelhante ao de doação de plaquetas. O sangue da placenta também pode ser utilizado para essa finalidade, logo após o nascimento do bebê. O sangue é coletado e mantido sob criopreservação por muitos anos. As células-tronco hematopoiéticas são infundidas por via endovenosa e demoram duas a três semanas para “pegar”, ou seja, para produzir células sangüíneas em quantidades que podem ser detectadas no hemograma.

Nos transplantes alogênicos, as células-tronco do doador podem reconhecer o paciente como estranho e atacá-lo. Esta reação é denominada “doença do enxerto contra o hospedeiro” (DECH). Os órgãos alvo mais importantes na sua forma aguda são pele (que se manifesta por “rash” cutâneo), intestino (diarréia secretória) e trato biliar (icterícia colestática). Para prevenir a DECH, são utilizadas comumente medicações como ciclosporina A e metotrexato. No seu tratamento, são geralmente associados corticóides. A DECH pode ainda existir na forma crônica, que geralmente ocorre meses após os transplantes e mimetiza doenças auto-imunes como síndrome Sicca, líquen plano oral, escleroderma, entre outros.

A freqüência e gravidade das complicações dos TCTH dependem da doença de base e de sua condição antes do procedimento, do tipo de transplante, da quimioterapia preparatória e do regime de radioterapia. As complicações pós-transplante podem ser agudas, geralmente decorrentes do regime preparatório para o transplante e crônicas, associadas à DECH ou aos efeitos tardios do tratamento.

O trato gastrintestinal pode ser alvo de grande dano durante esse processo. Os quimioterápicos e a radioterapia agem sobre todas as células do organismo, impedindo a sua multiplicação. A mucosa é composta por células que estão constantemente sendo renovadas. O regime preparatório para o transplante e o metotrexato utilizado para prevenção da DECH impedem, temporariamente, a regeneração da mucosa, que naturalmente sofre descamação, levando à formação de ulcerações dolorosas (mucosites) em todo o trato gastrintestinal, da boca ao intestino grosso. A quebra de barreira predispõe a infecções pelo vírus herpes, bactérias e fungos. A mucosite acomete entre 60% e 100% dos pacientes transplantados. Inicia-se logo após o regime de condicionamento e sua resolução ocorre de 10 a 20 dias após o TMO.

Os pacientes podem apresentar dor oral ou esofagiana que impede a ingestão de alimentos, além de vômitos, dor abdominal, má absorção e diarréia. Além disso, são freqüentes distúrbios hidroeletrolíticos do sódio, potássio, cálcio, fósforo e magnésio que podem alterar ainda mais a motilidade intestinal.

Assim, o estado nutricional pode ser fortemente afetado pelo processo do transplante. Durante este período de estresse metabólico, a oferta protéica reduzida pode influenciar negativamente a função imunológica. Também é importante ajustar as necessidades de energia e manter um balanço nitrogenado igual à zero.

Pacientes submetidos a transplante de medula frequentemente necessitam de terapia nutricional. A nutrição parenteral tem sido a prática mais aplicada devido às toxicidades gastrintestinais graves destes pacientes. Na nossa experiência no Instituto de Oncologia Pediátrica, a NPT é utilizada em 4% das internações, sendo que 37% destes pacientes são submetidos ao transplante.

Entretanto, a nutrição parenteral pode predispor o paciente ao maior risco de infecções. Assim, em transplantes que utilizam regimes de condicionamento menos intensos e causam mucosite leve ou moderada, é possível a utilização de dieta enteral. É importante que esta terapia seja avaliada diariamente, já que a integridade da mucosa intestinal pode estar comprometida até mesmo antes do início do regime preparatório e, além disso, a toxicidade intestinal pode preceder o surgimento da mucosite oral.

Já foi demonstrado que o início precoce da terapia nutricional pode aumentar a sobrevida dos pacientes. Desse modo, é fundamental a introdução de terapia nutricional precoce em pacientes submetidos a TCTH.

Algumas circunstâncias podem limitar o uso da NPT nos pacientes transplantados, como um maior risco de infecção e distúrbios no metabolismo de lipídios e glicose. Hipertrigliceridemia secundária ao uso de ciclosporina e hiperglicemia devido ao uso de corticóides são complicações freqüentes, que podem dificultar a oferta de lipídios e glicose endovenosos. Níveis de triglicérides ou glicose muito elevados predispõem pacientes graves à falência ou disfunção orgânica, além do aumento do risco de infecções.

Entretanto, a literatura é escassa quanto a informações referentes aos níveis plasmáticos de proteínas, lipídeos e glicose em pacientes submetidos a TMO.

Dois estudos sucessivos foram realizados no Centro de TMO do Instituto de Oncologia Pediátrica. O primeiro, entre outubro de 2003 e agosto de 2004 e o segundo, entre outubro de 2003 e dezembro de 2005.

No primeiro estudo foi realizado acompanhamento do perfil metabólico-nutricional (lipídeos, glicídios e albumina) de pacientes com câncer submetidos a TMO. Quinze pacientes foram avaliados: sete portadores de leucemias, quatro de linfomas e quatro de tumores de células germinativas. Oito realizaram TMO autólogo e sete TMO alogênico aparentado. Três dos pacientes que realizaram TMO alogênico receberam irradiação corporal total como parte da terapia de condicionamento. O período de internação foi em média de 33 dias, sendo que três pacientes faleceram durante a internação.

Treze pacientes usaram nutrição parenteral. A prevalência nos déficits de albumina e HDL-C (“high density lypoprotein-cholesterol”) aumentaram progressivamente durante o acompanhamento: 15%, 31% e 46% e 54%, 69% e 85%, respectivamente. O mesmo ocorreu com os níveis de glicose e triglicérides, com aumento progressivo nas prevalências de anormalidades no decorrer do TMO, que foram de 7%, 43% e 50% e de 31%, 69% e 77%, respectivamente. Níveis de colesterol total e de LDL-C (“low density lypoprotein-cholesterol”) acima do normal foram observados somente em um paciente antes da infusão da medula óssea.

No segundo estudo, realizamos a avaliação da terapia nutricional e o seu impacto sobre o estado nutricional durante o TMO. Os 49 pacientes estudados apresentavam mucosite (25%), náuseas (23%), odinofagia (15%) e vômitos (9%). Terapia nutricional foi necessária em 90% dos casos: 57% deles consumiram suplemento oral industrializado e 26,5% receberam dieta enteral por sonda nasogástrica ou nasoenteral. Entretanto, 63% dos pacientes chegaram a necessitar de nutrição parenteral devido às toxicidades gastrintestinais graves. Os gráficos 1, 2, 3 e 4 apresentam os demais resultados.

A avaliação da adequação da adiposidade e do tecido muscular à internação e na alta não demonstrou alterações importantes (103%-102%; 97%-94%, respectivamente), sendo que a maior parte dos pacientes manteve-se sem déficit nutricional, demonstrando a efetividade das intervenções realizadas.

Assim, conclui-se que os transplantes de medula são procedimentos de grande toxicidade para o trato gastrintestinal. A avaliação nutricional cuidadosa é fundamental no acompanhamento destes pacientes. A melhor terapia nutricional ainda não está bem definida. Serão necessários estudos prospectivos que levem em conta indicadores antropométricos, bioquímicos, custo, índice de recidiva, de DECH (doença do enxerto contra o hospedeiro) e a sobrevida global dos pacientes.


Gráfico 1 - Esquema terapêutico: regime de condicionamento ou
regime preparatório - Garófolo A, 2009


Gráfico 2 - Terapia nutricional de acordo com o tipo de transplante:
autólogo vs alogênico aparentado - Garófolo A, 2009
NPT: nutrição parenteral total; NE sonda: nutrição por sonda nasogástrica ou nasoenteral


Gráfico 3 - Tipo de dieta usada e posição da sonda - Garófolo A, 2009


Gráfico 4 - Contribuição da terapia nutricional para a oferta de energia total diária
(porcentagem da necessidade: gasto energético total - GET) - Garófolo A, 2009
VO: via oral; NPT: nutrição parenteral total

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